Naqueles verões ditatoriais do começo dos anos 70, íamos todos – músicos, atores, cineastas, GL-esses, mods e demais tribos – a um bar na Barão da Torre, quase esquina com a então Montenegro (hoje Vinícius de Morais), o Pizzaiolo. Regia o lugar um nordestino grisalho de grandes olheiras, o Campos. Como vivíamos duros, Campos pendurava nossas contas por trimestre, quando pagávamos ao receber os direitos autorais.
Certa noite, estávamos eu, Guarabyra, Toninho Neves e mais alguém ou alguéns em uma mesa, e Mariozinho Rocha em outra ao lado, conversando alguma coisa de disco, quando de repente – em uma ocorrência nada rara naquela época de repressão permanente e ostensiva – irromperam pelo bar alguns policiais de metranca em punho, chefiados por um super-truculento “jovem delegado”, que foi logo gritando:
— Todo mundo quieto aí. A gente só vai pegar quem tem droga.
Vaia geral. A galera, já com umas e outras em cima, não tinha o menor pejo em mandar a polícia embora. Aí, o delegado subiu na ponta dos cascos:
— Vocês vão ver que comigo a barra é diferente!
O delegado chegou finalmente até a mesa do Mariozinho que, ao contrário de nós, por força de seu cargo em uma gravadora, era o único de terno no bar. Mas também era o único que continuara a conversar normalmente. Visivelmente irritado por isso, o delegado olhou bem olhado para o frondoso bigode do Mário e ordenou, em dolby estéreo:
— Documentos!
Mário parou a conversa e, impávido, retrucou:
— O senhor tem mandado de busca?
O meganha explodiu:
— O dia que eu precisar de mandato pra entrar nesse antro, mando te avisar. Documentos!
O bar inteiro parou de vez, em clima de saloon. Era a hora do duelo e Mariozinho ousou tudo ou nada:
— Então não mostro documento nenhum.
Em segundos, aproveitando a oportunidade de uma exibição para tão seleta plateia, o delegado deu uma fulminante chave de braço no Mário, que foi arrastado para o camburão sob os protestos dos frequentadores. Ficamos nós três em pânico. Mesmo sendo uma figura pública como ele, que à época tinha um dos maiores índices de audiência da TV como integrante do júri do Programa Flávio Cavalcanti, uma prisão por desacato no auge da ditadura poderia ter sérias consequências:
— Vamos atrás do camburão! – falou Guarabyra, já se levantando.
Fomos correndo até o meu carro, que estava estacionado em frente. Antes, aproveitando uma distração do policial civil que montava guarda na traseira da viatura, cheguei junto à porta e sussurrei para dentro:
— Mário! É o Sá! Estamos indo atrás de você!
Ouvi um murmúrio abafado vindo lá de dentro, mas não consegui entender o que era. Anos mais tarde, ele me falou que estava pedindo um uísque...
Alguém — acho que o Campos — já nos tinha dito que aquele pessoal era da Delegacia do Posto 6, em Copacabana. No estado em que estávamos, demoramos um pouco a chegar à delegacia, quase esquina de Francisco Sá com Copacabana. O galipão estava lá, estacionado na porta. Nós o reconhecemos pelo número que tivéramos, não sei como, a presença de espírito de anotar.
— A gente vai ter que entrar lá – falou o Guarabyra.
— Um de nós vai ter que ir lá – reforçou o Toninho.
Os dois olharam para mim de uma maneira que me deixou frio. Falaram quase ao mesmo tempo:
— Está com a carteira de advogado aí?
Fiquei instantaneamente sóbrio de tudo:
— Vamos todos juntos!
— Para quê? E se dançar todo mundo?
— Bom, pelo menos não vou estar sozinho...
Mas minha argumentação não tinha base. O único de nós com chance de armar alguma lá dentro era eu, graças à carteirinha vermelha da OAB. Ela valia alguma coisa, mesmo naqueles tempos.
— Músico e jornalista ali dentro são comida certa, argumentou Guarabyra, soterrando definitivamente minhas ambições de uma vida tranquila e musical para aquela noite.
Antes de sair do carro, dei-me uma boa olhada pelo retrovisor. Eu não tinha tido tempo de ir a casa à tarde e ainda estava de óculos escuros. Uma aventura por meus cabelos faria a delícia de qualquer Indiana Jones, com direito a índios e feras. Eu vestia uma túnica indiana muito ao gosto da época, mas nada na moda para policiais, acompanhada da minha famosa calça branca com moranguinhos bordados, que já me havia deixado anteriormente em situações de médio a muito embaraçosas. Eu era hippie, gente! Meu visual inefável era completado por um colar de dente de javali e uma pulseira de pelo de rabo de elefante... Tirei os anéis que lotavam meus dedos e entreguei para Toninho, em um gesto de ritual kamikaze:
— Se eu não voltar mais, fica para você.
Repeti o mesmo ritual suicida dando a pulseira para o Guarabyra, que – para variar – já estava às gargalhadas. Resolvi manter o colar apenas por uma questão de ideologia. Escovei-me como pude, saí do carro e atravessei a rua rumo à delegacia. O cenário não fedia nem cheirava: um comprido banco de concreto acompanhava a parede, em frente a uma espécie de praticável, onde ficavam em mesas de tamanhos equivalentes aos respectivos cargos, o delegado invasor, o escrivão e um outro cara que fazia o bonzinho, consolando os assustados pelos rompantes do temperamental komissar. Mariozinho jazia a meio-pau na lateral esquerda da defesa, quer dizer, no canto do praticável à minha direita. Quando me viu entrar, abriu um sorriso brilhante demais para a ocasião e me acenou como se estivéssemos nos encontrando em uma agradável tarde de outono no paddock do Jóquei Clube. Mas os olhos alertas do delegado não deixaram que o aceno de Mariozinho passasse em branco. Ele fincou as butucas em mim e armou uma pose Bogartiana, com doses iguais de intolerância, ironia e deboche. Apontou-me o maior dedo indicador que eu jamais vira e torceu-o, chamando-me com a tonitroante voz da autoridade ofendida:
— VOCÊ!
— Quem, eu? – respondi como se estivesse em outro lugar, que, aliás, era onde eu queria estar.
— É, você mesmo! De onde você veio e o que é que você está fazendo aqui?
— Eu... Eu sou advogado aí do rapaz, esse aí que o senhor prendeu lá no Pizzaiolo...
Saquei da vermelhinha e coloquei-a cuidadosamente em cima da mesa dele, que olhou na direção do Mariozinho, que sorria beatificamente e continuava me acenando de longe. O delegado pegou minha carteira e examinou-a algum tempo. Olhou pra mim:
— Bem diferente do retrato, não é... doutor? – falou, fitando visivelmente espantado pelo meu três-por-quatro seriíssimo, de gravata e tudo.
— Faz um tempo...
— O senhor é formado pela Cândido Mendes? – tornou ele, revirando a vermelhinha.
Mariozinho sorria mais beatificamente ainda, agora que ouvira o delegado me chamar de doutor.
— É... Turma de 68.
— Olha só! – disse ele, em um esgar próximo do sorriso – Eu me formei pela Cândido Mendes também. Turma de 69. Você era do dia ou da noite?
Entabulamos uma conversa sobre professores que ainda permaneciam por lá ou não. Ele perguntou minha especialidade e eu menti que era direito autoral. Fazia já algum tempo que eu não passava perto de um livro de Direito.
— Sei! – a carranca autoritária voltou à sua expressão – Então você anda por aí com essa turma... Artista, coisa e tal... Esse pessoal toma muita droga, né não?
— Ah... Que é isso, a imprensa é que exagera...
O delegado se exaltou. Deu um tapa na mesa e olhou em volta:
— Vocês podem não acreditar, mas eu vou acabar com o tráfico de drogas na minha região!
Parou de chofre, olhou para o Mario e soltou sua melhor voz sinistra:
— E o bigodudo aí, quem é?
Cheguei mais perto dele, com o ás na manga. Ou funcionava ou acabava de estrunchar tudo:
— Ele é o Mariozinho Rocha. Do júri do Flávio!
O delegado abriu a boca. Virou-se de lado, olhou Mariozinho fixamente por uns dois minutos. Voltou-se para mim de novo, agora mais confidencial:
— Mas é ele mesmo! Bem que eu achei que conhecia essa cara de algum lugar. Mas sabe como é, a gente passa o dia inteiro vendo foto de traficante... O que é que deu nele?
Mandei minha melhor cara de bobo:
— Não sei, a gente só estava tomando umas...
Ele virou-se para o Mário, que começara certamente a duvidar da minha eficiência advocatícia:
— Chega mais aqui, ô Mariozinho Rocha. Mas que onda é essa? Você é um cara de responsabilidade, tá aí na televisão todo dia, dando um vexame desses?
— Espera aí, doutor, eu posso explicar... – falou o Mário.
O delegado deu uma risada:
— Que é isso, meu amigo. Que explicar que nada. Não dá para desacatar autoridade não, nem sendo do júri do Flávio Cavalcanti! – fez que parava para pensar e continuou, com um ar paternalista:
— Mas você é gente fina, eu vou livrar tua cara. Aproveita aí teu amigo meu colega e vai nessa!
Voltou de novo o discurso anti-isso, aquilo e tudo para o resto dos presentes. Agora ele era escutado pelos escrivães, detetives, prostitutas, travestis, traficantes e cafetões que já começavam a encher a sala, no auge daquela madrugada de sexta-feira. Acenei um adeusinho para ele. Ele nos mandou embora com um meio sorriso e continuou o falatório. Saímos fora.
Guarabyra e Toninho estavam mais ou menos nas mesmíssimas condições em que eu os havia deixado coisa de uma hora antes. Toninho cochilava e Guarabyra bebericava um uísque aparecido não sei de onde. Ao ver-nos, deu uma risada:
— Soltou o homem, doutor? Aí, advogado de porta de distrito!
Toninho acordou e entrou na festa. Tomamos todos do uísque do Guarabyra e pulamos fora dali. Nossa reentrada no Pizzaiolo foi triunfal. Campos, o dono, que também havia estado no distrito defendendo seu bar da invasão ilegal, ofereceu várias rodadas por conta da casa e quis me contratar para processar a polícia por invasão. Tirei essa ideia da cabeça dele:
— Campos, eu sou músico.
Ele poderia ter dito: “O que não paga sua conta”. Mas teve a elegância de não dizê-lo.
Saímos de lá já amanhecendo, animados e cheios de projetos de justiça. Andamos a pé até a Lagoa, com o cheiro do verão batendo fundo, o sol mandando em tudo. De repente, como que vindos do nada, passaram alguns caminhões do exército, liderados por um jipe com as luzes piscando. Então, caímos na real. Voltamos para o carro e fomos curtir a ressaca em casa, com o peso da ditadura ainda rondando nossas manhãs.