Reaper

REPORTAGEM - MIGUEL RATTON
Nem tudo o que é bom custa caro
O mercado de softwares de gravação está repleto de opções, com preços e recursos para todos os gostos e bolsos. Em geral, vale a velha máxima de que “você paga pelo que tem”, e assim os melhores softwares – mais completos, mais funcionais e mais estáveis – são também... mais caros.
Mas, se você pesquisar com atenção pela Internet, vai encontrar também muitas coisas boas a preços extremamente acessíveis – e até mesmo de graça. A verdade é que, para quem não é um megausuário, provavelmente haverá uma opção mais em conta, que atenderá às suas necessidades.
O Reaper é um desses casos. Um software para composição, gravação e processamento de áudio e de midi, com alguns recursos impensáveis para a sua categoria de preço, e que permite criar música de várias maneiras, seja usando instrumentos midi (inclusive sintetizadores virtuais), seja gravando e editando áudio. Desenvolvido pela Cockos, uma empresa composta por um grupo de programadores, dentre eles o criador do WinAmp, o Reaper oferece um ambiente integrado para a gravação, edição, proces-samento e mixagem de midi e áudio. A primeira versão beta do Reaper foi lançada em 2006, e desde então vem evoluindo significativamente, com a incorporação de várias ferramentas e recursos.
Distribuído na base de shareware, o Reaper começa impressionando pelo tamanho – apenas 4.6 MB – e pela instalação rápida. Sua operação aparenta total estabilidade, e a leveza no consumo de CPU é igualmente impressionante, mesmo aplicando plug-ins de pitch shift em tempo real nas pistas de áudio. Embora o software não possua Help, há um manual em PDF com mais de 400 páginas, bem ilustradas e com bastante informação. Na página do Reaper também existe um fórum de usuários.
Assim como nos demais softwares do gênero, a janela principal do Reaper mostra as pistas do projeto, que podem ser de midi, de áudio ou de instrumentos virtuais, tudo em um ambiente bastante integrado e funcional. A barra de ferramentas (ícones) original é realmente “enxuta”, mas a quantidade de funções e comandos acessados através dos menus é bem grande, e você pode adicionar ferramentas, personalizando a interface visual. Além disso, o usuário do software pode personalizar diversos aspectos, como o comportamento de mouse nos procedimentos de edição, por exemplo.
O Reaper funciona com interfaces de áudio Asio, WDM, DirectX ou dispositivo de saída do Windows, e pode gravar áudio com resolução de 16 a 32 bits e taxas de até 192 kHz. Ele importa/exporta áudio de arquivos WAV, Flac, MP3, AIFF, OGG e WavPack, e importa vídeo (apenas para a edição do áudio) de arquivos WMV, AVI, MOV e MPG. Também importa e exporta material em midi File.
Além de já vir com vários plug-ins de processamento de áudio e de midi no formato JS, inclusive com suporte a 64 bits, ele aceita também qualquer plug-in no formato VST, VSTi, DX, DXi ou AU (este, somente na versão para Mac), e ainda tem suporte à conexão ReWire. O conjunto de plug-ins inclusos no software, apesar da aparência muito simples, atende a uma enorme gama de necessidades, dispondo de compressor, EQ, chorus, flanger, pitch-shift, vocoder e sintetizadores simples.
Não existe limite predeterminado para a quantidade de pistas, de maneira que você pode ir adicionando pistas e plug-ins até onde o processamento do computador aguentar. O conteúdo das pistas de midi pode ser visualizado e editado com detalhes nas janelas de Piano Roll e Event List, e o conteúdo das pistas de áudio pode ser editado por um editor externo, definido pelo usuário. O Reaper tem suporte também para a automação de mixagem e de plug-ins (desde que suportem automação), através de curvas de envelope que podem ser criadas e editadas manualmente ou ajustadas por controles do software em tempo real. Há um teclado virtual, que pode ser usado para se entrar com notas midi usando o mouse ou o teclado do computador – ótimo para quando não se tem um teclado midi por perto.
Uma pista de áudio pode funcionar como pista normal ou como um bus, recebendo mandadas de outras pistas. E você pode facilmente transformar uma pista em uma pasta (folder) de pistas.
Apesar da aparência simples, o Reaper tem muita funcionalidade, e a rodinha do mouse pode ser usada para aplicar zoom de maneiras diferentes, dependendo do que está sendo apontado. Na verdade, o Reaper possui vários recursos funcionais que sempre quisemos ver em softwares mais sofisticados (e mais caros!), como, por exemplo, inserir mudança de andamento e/ou compasso diretamente na régua de tempo ou inserir rapidamente uma pista de clique (metrônomo). Para quem trabalha com vídeo, é possível gerar o sinal de SMPTE através de uma pista de áudio para sair diretamente por qualquer saída da interface de áudio, assim como é possível receber sinal de timecode através de qualquer entrada da interface de áudio (e também receber mensagens de MTC via midi).
O endereçamento das pistas para as saídas pode ser feito da forma convencional adotada pela maioria dos softwares de gravação, selecionando-se o dispositivo de saída em cada pista, ou então usando o “Routing Matrix”, em um processo semelhante ao que existe nos consoles de mixagem digital. O mesmo acontece com a criação de grupos de pistas.
O suporte a superfícies de controle é muito eficiente, e você rapidamente consegue configurar seu sistema e colocá-lo operando integrado com o Reaper. Nos testes, foi usado um console Yamaha O1X, que em poucos segundos estava controlando perfeitamente o software. Como já foi mencionado, embora o design dos painéis de controle dos plug-ins nativos seja muito simples, o mesmo não acontece com seu desempenho. O ReaPitch, por exemplo, é um plug-in VST que processa alteração de afinação (pitch shift) em tempo real e pode produzir ótimos resultados, com muito pouca deterioração da formante, graças aos algoritmos “Élastique”. Isto permite que um vocal seja transposto em vários semitons sem ficar com aquela característica de “voz de Pato Donald”. O software se comporta muito bem com vários plug-ins pesados (pitch-shift, reverb de convolução) aplicados simultaneamente. Aliás, esta talvez seja a característica mais marcante do Reaper – leveza e estabilidade: você pode abrir e ajustar janelas, alterar o andamento da música, etc., enquanto a música está sendo reproduzida com várias pistas e vários plug-ins pesados, e o Reaper está lá, “mandando ver” (ou melhor, “mandando ouvir”).
Você vai se surpreender à medida que experimentar o Reaper, e for descobrindo novos recursos. O software está disponível para Windows, Windows 64 bits, Mac OSX Intel e Mac OSX PPC, e também pode rodar diretamente de um pen drive. Você pode baixar a versão 3.05 diretamente da página do próprio Reaper (www.reaper.fm). Depois de instalar e testar, se quiser continuar usando o Reaper (que não é bloqueado) você está convidado a pagar por ele. O preço da licença plena é US$ 225, mas a Cockos oferece um preço especial de US$ 60 para uso pessoal, ou para uso comercial se sua receita anual não ultrapassar US$ 20 mil, ou ainda para uso em instituição educacional. Com condições tão justas e acessíveis, não há porque não pagar...

Figura 1 - Janela principal
Figura 2 - Janela Piano Roll
Figura 3 - Matriz de roteamento de entradas e saídas
Figura 4 - Ótimo desempenho, mesmo com processamentos pesados