Opinião
Ricardo Mendes

Gravando
bateria em casa
Este talvez seja o instrumento mais complicado de se gravar em casa... No entanto, já tem muita gente fazendo. A questão, em um quase antiplágio de Shakespeare, não é “fazer ou não fazer”, e sim, como obter um bom resultado

Bem, redundante ou não, é preciso listar mais uma vez o que faz uma bateria soar bem:
1 – O baterista. Não há como tirar um bom som de bateria, seja no seu quarto ou no Abbey Road, se o baterista não for bom, se não tiver precisão, pegada e bom gosto.
Sound Replaces, Drumagogs e similares não irão fazer um baterista ruim soar bem. Microfones e pré-amps caríssimos, pelo contrário. Um bom microfone e um bom pré-amp ressaltam tudo, inclusive se o cara é ruim. Registrarão em detalhes todas as imperfeições e defeitos de uma bateria mal tocada.
2 – Uma boa bateria. A bateria tem que soar bem por si só. Se o som de uma peça estiver ruim, não acredite que compressores ou equalizadores irão fazê-la soar bem. O máximo que você conseguirá, depois de muito esforço será transformar uma porcaria em algo mais ou menos.
3 – Peles novas. Pele de bateria é que nem corda de guitarra. Se estiver velha, não afina e perde o som. Já a questão entre porosa e hidráulica, é realmente uma questão de gosto. Para pop, rock eu prefiro hidráulicas menos na caixa. Na caixa eu já prefiro a pele porosa. Se for um som mais jazz, MPB, eu já prefiro a bateria toda com pele porosa.

4 – O ambiente. Raramente em casa teremos as condições acústicas ideais para se gravar uma bateria. Tem que improvisar. A primeira coisa é tentar colocar a bateria centralizada na sala/quarto em que ela será gravada. Peça para o baterista tocar (ou toque você mesmo) e escute o que está sobrando no ambiente. Colocar um tapete embaixo dela é um bom começo. Se a gravação for no quarto, experimente tirar os colchões da cama e colocá-los em pé, encostados nas paredes. Se tiver cortinas, feche-as. Se tiver armários, abra-os. Quanto mais “bagunçado” estiver o quarto, em tese, melhor o som, pois as superfícies estarão irregulares, diminuindo assim as reflexões, e consequentemente diminuindo as sobras e excessos de frequências. Outro detalhe que deve ser observado: pelo fato da bateria emitir muito som, ela pode fazer vários objetos do seu quarto vibrarem, causando ruídos indesejados. Portas de armários são as campeãs. Por isso, deixá-las abertas é uma boa ideia. Deixa a superfície do quarto mais irregular e também evita que elas fiquem vibrando. Se tiver ventilador de teto, pendure um monte de roupas nele. Ajuda a absorver um pouco as reflexões do teto. Você já deve estar imaginando como o quarto vai ficar. Talvez a sua mãe ou sua esposa/marido não goste muito... Pelo bem do seu relacionamento familiar, recomendo que ao final de tudo você coloque as coisas como elas estavam.

5 – O horário. Se você mora em casa e sozinho, e sua casa tem um grande terreno e os vizinhos ficam bem distantes, não há muito que se preocupar em relação a horários. Mas com certeza esta não é a maioria dos casos. Escolha horários quando não houver pessoas em casa para que suas atividades de captação de bateria não incomodem seus familiares. Em questões familiares, a sua bateria não é mais importante do que a novela, o jornal ou o horário de estudos de alguém... O mesmo raciocínio se aplica aos vizinhos próximos, especialmente se estivermos falando de apartamentos. Tente descobrir qual é a rotina de seus vizinhos e tente fazer suas gravações nos horários em que eles não estão em casa. Pode ser que você tenha um vizinho que tem um parente idoso ou doente e o barulho vai ser um incômodo terrível. Bem, neste caso eu sugiro você conversar com seu vizinho antes e explicar que você vai precisar fazer “um barulhinho a mais” e qual seria a melhor maneira de fazer isto sem prejudicar muito o sossego alheio. Eu gravo bateria na minha casa, tenho vizinhos relativamente próximos. Então eu coloquei uma regra: bateria e guitarra de rock´n roll no amplificador não gravo depois das dez horas da noite. Já estou aqui há quatro anos e nunca recebi uma única reclamação. Na verdade a única que recebi foi relativa a uma banda que saiu do estúdio às 2 da manhã e ficou conversando alto na calçada da rua. O blá blá blá incomodou meus vizinhos. Imagine se eu inventasse de gravar bateria neste horário? E convenhamos é complicado gravar uma bateria sob reclamação de vizinhos ou parentes e ter que pedir para o baterista tocar mais fraco para não incomodar a vizinhança.

6 – Microfones. Uma bateria pode ser captada desde um microfone até mais de vinte. Isso depende do que você tem de equipamento. Vamos analisar alguns cenários:

6.1 – Você tem um Microfone condensador de cápsula grande ou um dinâmico. Existem dois pontos de partida. O primeiro é você ficar em pé a um metro da bateria e colocar o microfone mais ou menos na posição em que está a sua cabeça. Para fazer a “mixagem” das peças você vai movimentando o microfone. Quanto mais para baixo, mais bumbo você irá pegar. Quanto mais perto, mais tons e caixa; quanto mais alto, mais pratos. Você vai movimentando o microfone até achar uma posição em que as peças estejam equilibradas. Outro ponto de partida é colocar o microfone um pouco acima da cabeça do baterista. Vale o mesmo raciocínio: vai movendo o microfone até achar o equilíbrio entres as peças. Para isso não existe fórmula ou uma posição preestabelecida do microfone. Grave um trecho com o microfone em cada posição e depois compare qual ficou mais equilibrado.

6.2 – Um condensador e um dinâmico. O condensador como no tópico 6.1, só que um pouco mais para dentro da bateria. Mais sobre os tons e os pratos e o dinâmico no bumbo.

6.3 – Um condensador e dois dinâmicos. O condensador como no tópico 6.2, só que mais alto. Ele irá começar a funcionar como um overhead mono. Os dinâmicos, um no bumbo e outro na caixa.

6.4 – Dois condensadores. Um na frente da bateria como no tópico 6.1, só que bem mais baixo e o outro como no tópico 6.3, servindo como overhead.

6.5 – Um par de condensadores e um par de dinâmicos. O par de condensadores como um overhead estéreo (um acima do ride e outro acima do hi-hat). Certifique-se de que ambos têm uma mesma distância em relação à caixa, assim não haverá cancelamento de fase da mesma. O par de dinâmicos, um no bumbo e outro na caixa.

6.6 – Um microfone para cada peça da bateria. Um dinâmico no bumbo, um na caixa, um para cada tom. Um par de condensadores para o overhead e um condensador de cápsula pequena para o hi-hat.

6.7 – Mais de um microfone para cada peça da bateria (neste estágio você provavelmente já não está mais gravando no quarto da sua casa). Dois dinâmicos no bumbo. Um dentro e outro fora. O de dentro vai dar mais o som do “kick”. Quanto mais para dentro, mais kick e menos corpo. O de fora vai dar mais corpo e ressonância da pele de resposta. Dois para a caixa. Um em cima e outro embaixo. Tente colocar o de cima na borda da caixa, a 45º, apontando para o centro da mesma. Com o de baixo faça a mesma coisa, só que do lado oposto. Dessa maneira as cápsulas de cada um ficariam apontando uma para a outra. Neste caso os microfones irão com fase em 180º. Aplique um reversor de fase em um dos canais. Um dinâmico para cada tom. Um condensador de cápsula fina para o hi-hat e outro para o ride (eu não costumo usar). Um par de condensadores de cápsula grande para o overhead e outro para mais distante para captar a ambiência da sala (se a sua sala tiver um bom som). Só aí já são 13 canais de bateria. Boa sorte e divirta-se.
Microfones que eu uso:
Bumbo: MD 421 ou D-112 ou RE-20
Caixa top: AKG 414 ou SM-57
Caixa bottom: AKG 451 ou SM-57
Hi-Hat: AKG 451
Tons: SM 57 ou MD 421
Overhead: MXL V67
Ambiência: Neumann TLM-103

e-mail para esta coluna:
jorgepescara@backstage.com.br


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