Foi publicado no início de agosto, no Diário Oficial da Cidade de São Paulo, o edital que vai selecionar o projeto para a reurbanização da região da Rua Santa Ifigênia, também conhecida como Nova Luz, no Centro da capital paulista. Por trás da ideia de revitalização da área conhecida como Cracolândia, a intervenção vem sendo apontada pelos lojistas da região – tradicional polo de venda de equipamentos de áudio – como arbitrária e prejudicial ao segmento. Já aprovada pela Câmara de Vereadores de São Paulo, a proposta encaminhada pelo Executivo Municipal, agora lei, vai permitir ao vencedor da licitação desapropriar imóveis na região. De acordo com o presidente da Associação dos Lojistas da Santa Ifigênia, Paulo Garcia, apesar de prever que essas desapropriações sejam feitas mediante pagamento de valor de mercado pelos imóveis, o texto obriga os atuais proprietários a negociarem apenas com os vencedores da licitação.
“Todos os lojistas da área serão atingidos, algo em torno de 5 mil comerciantes. Até quem se julga fora da possibilidade de sofrer algum prejuízo, por estar em imóvel tombado pelo Patrimônio Histórico, será lesado. A lei não garante a propriedade do imóvel”, alerta Garcia.
Ainda de acordo com o presidente da associação dos lojistas, o projeto, conhecido como Concessão Urbanística, prevê também que a empresa ou consórcio vencedor da licitação poderá explorar comercialmente a região por um prazo de 70 anos, inclusive comprando e vendendo imóveis, o que, futuramente, poderá atingir todas as lojas da região.
“É um jogo de cartas marcadas. O Projeto Nova Luz, de 2007, foi pago pela Associação Imobiliária Brasileira (AIB). As empresas do setor imobiliário bancaram a eleição ou reeleição dos vereadores envolvidos na aprovação do projeto. E o sindicato que representa as construtoras fez doações de vulto para a reeleição do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Quem bancou a reeleição de todo mundo é quem vai ter os lucros com esta reurbanização”, denuncia.
A região da Nova Luz será apenas a primeira a sentir os efeitos da legislação que trata da Concessão Urbanística, prevista para chegar a outras áreas da cidade de São Paulo. Segundo Paulo Garcia, o Ministério Público do Estado está questionando judicialmente o projeto. “Alguns vereadores e o próprio Kassab estão sendo investigados. É possível reverter o processo, uma vez que esta lei contraria a Constituição”, alega.
Através de sua assessoria de comunicação, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo garante que as acusações são improcedentes. Com relação às desapropriações, o órgão afirma que os locais atingidos farão parte de lotes determinados e previamente divulgados. O prazo de 70 anos para explorar a área também é desmentido, uma vez que, segundo a Secretaria, o projeto não fala em exploração, mas em desapropriação para a construção de empreendimentos.
Sobre as acusações de troca de favores entre setores do mercado imobiliário e grupos políticos, a Secretaria pondera que as doações de campanhas são públicas e que associar esta prática aos atos posteriores à eleição coloca “todas as decisões governamentais, em todos os níveis, como suspeitas”. O órgão municipal confirma os questionamentos por parte do Ministério Público do Estado de São Paulo, mas diz que não há ação judicial, e garante que a Concessão Urbanística respeita a legislação federal prevista no Estatuto da Cidade.
Ainda segundo a Secretaria de Desenvolvimento Urbano, o projeto tem por finalidade atrair novas empresas e moradores para a região a partir de novos empreendimentos, “induzindo o desenvolvimento econômico da região”. Garante também que a Rua Ifigênia, considerada uma exceção no que diz respeito à degradação do entorno, deverá ser incentivada.

Comerciantes temem que projeto da prefeitura de São Paulo desaproprie lojas da região da Rua Santa Ifigênia. Secretaria de Desenvolvimento Urbano desmente
REPORTAGEM
Tradição ameaçada
Paulo Garcia, presidente da associação de lojistas