TOO MANY
NOTES
OPINIÃO - TICIANO PALUDO

As publicações de áudio são técnicas, e não voltadas para o universo da música em si. No entanto, nunca li (e se alguém conhecer alguma, por favor, me diga) uma boa revista que fale sobre música, escrita por pessoas que entendam de música e que utilizem argumentos plausíveis, sem ficar entrando em questões técnicas, e sim comentando a arte enquanto arte com propriedade para tal. Ou seja, abordagem correta de questões estéticas, artísticas e conceituais.
Existe um problema inevitável: acho confuso e utópico a separação imaculada entre gosto pessoal e análise crítica. Por mais isentos que pretendamos ser, quando menos nos damos conta, lá está ele, o nosso gosto querendo imperar e se salientar. Acredito que isso faça parte de nós. Até aí, tudo bem, desde que domemos este selvagem que nos habita. O problema é quando lemos baboseiras descon-textualizadas. A motivação que me leva a escrever a coluna deste mês tem três pilares: críticas equivocadas ao trabalho de Mozart, ao trabalho de Caetano Veloso e ao meu próprio trabalho. O Kiss sempre debochou dos críticos, porque quanto pior eles falavam, mais público, vendas e dinheiro chegavam para banda. Isso quer dizer que os críticos erraram? SIM! Você certamente já foi assistir a um filme que teve uma crítica negativa e gostou, assim como o oposto, ou seja, assistir a um filme elogiado que não lhe disse nada. De qualquer modo, a crítica é necessária. Mas a boa crítica, e não o amadorismo que nos ronda constantemente. Isso é culpa de quem? Da falta de preparo e estudo de quem pretende entrar nesse meio.
Comecemos por Mozart. Recomendo que você assista ao filme Amadeus. É um dos meus filmes preferidos e, embora seja um pouco caricato em demasia, consegue construir um bom panorama do que representava ser músico no século XVIII. Pois em determinado momento do filme, uma pessoa leiga em música diz a Mozart que suas composições não eram ruins, mas que ele utilizava notas demais (“too many notes”). Mozart respondeu que isso era um absurdo e que ele utilizava as notas que as composições pediam, nem mais, nem menos. Já havia lido sobre isso em biografias que tratam da vida deste grande compositor, o que nos faz pensar que este episódio realmente aconteceu. Ainda que não fosse verdade, leio “críticas” similares a esta. Portanto, o exemplo serve para reflexão.
No caso do Caetano, a coisa fica pior ainda. Caetano é para mim um artista absurdamente competente, inventivo, ousado e capaz. Tenho lido declarações suas dizendo que não gosta do que vê no espelho. Hora, Caetano, por favor! Você deveria não só gostar, como adorar. Caetano está envelhecendo. Eu, particularmente, também não gostaria de envelhecer. Mas isso faz parte da magia que é estar vivo. Se pensarmos bem, o problema é envelhecer a mente, os pensamentos. O corpo padecerá com todos. A chave está na mente. E afirmo com todas as letras que a mente de Caetano continua jovem, criativa e avassaladora. Li diversas críticas negativas sobre seu álbum mais recente (Zii e Zen, 2009). Comprei (sim comprei, não baixei ou pirateei) esta obra artística assim que saiu e recomendo muito sua audição. Em seu álbum anterior (Cê, 2006), Caetano já dava pistas do que estava por vir. O que ele fez, afinal? Uniu-se a um time de jovens e talentosos músicos e criou o que eu chamaria de neo-tropicália-roqueira. Essa é a sonoridade de seu álbum recente. Desde Otto que eu não ouvi algo tão interessante. A MPB atual precisa dessas reinvenções e Caetano mostrou, mais uma vez, que sabe onde pisa. E o que disse a crítica? Que ele estava amargo e perdido. Sabem por quê? Porque essa crítica despreparada queria coisas “queridinhas” como Leãozinho. A crítica aprecia um álbum, estética ou estilo e acaba por engessar o artista, aprisionando-o permanentemente em rótulos estáticos que considera imutáveis. Qualquer tentativa de inovação parece vista como “too many notes”. Parece aquela fobia infantil de querer ajustar a música “para tocar na rádio”. Estamos em 2009! Acorde!!! Se você ainda não ouviu esse álbum de Caetano, está perdendo tempo. Ele (e sua trupe) conseguiu produzir uma mistura de samba, rock, MPB e tropicalismo muito interessante, com doses invejáveis de brasilidade.
E o meu caso? Bem, um artista que produzi resolveu enviar a minha produção para que um colega produtor a avaliasse. Até aí, nada de errado. A questão que fica é: esse “produtor” possui um site no qual disponibiliza um serviço de audição de avaliação gratuita. Ele recebe o material, avalia e publica a sua avaliação. Achei essa avaliação do meu trabalho ao acaso pesquisando no Google. O cara começa cheio de dedos, me elogiando, dizendo que não vai se melindrar em avaliar um produtor famoso (no caso, eu), diz que a produção que eu realizei é de alto nível (e eu, lendo e esperando a martelada previsível que viria a seguir) e de repente: boom! Adivinhem o que vem escrito? “Too many notes”, ou seja, que eu utilizei elementos demais no trabalho. Críticas são sempre bem-vindas, desde que o remetente tenha cacife para criticar. O problema é que este sujeito não participou do processo e, consequentemente, não fazia a menor ideia do conceito criativo desenvolvido por mim e por este artista que produzi. O que ele julgou como ruim era justamente o nosso foco de ação, a base do nosso A&R, ou seja, um arranjo complexo e nada minimalista. Não gostar é um direito de todos. Agora, julgar uma escolha criativa como erro é o próprio erro (e prova de despreparo para análises desse tipo, que costumam ser delicadas e errôneas). O bom humor é necessário. Os exemplos aqui são para a gente se divertir, dar risada e ver o papelão que essa gente paga por não saber o que está dizendo.
Sempre falo isso a meus alunos da PUC e da Faccat: primeiro a gente domina a regra, depois pode quebrá-la. E é lamentável que no Brasil não existam publicações voltadas para a música com gente realmente preparada para escrever sobre música. Talvez existam blogs legais (como o de Adriana Amaral, http://palavrasecoisas.blogspot.com), agora, publicações impressas de massa, ainda não vi nenhuma. É o mesmo caso da esmagadora maioria dos vendedores que trabalham em lojas de discos: não entendem absolutamente nada de música. Então, que diabos estão fazendo ali? O que o mundo menos precisa é de ignorantes que só sabem dizer “too many notes”.

Existe uma coisa que sempre foi falha no Brasil: a crítica musical. Salvo raros casos (como as colunas do Nelson Motta), o que
se enxerga é um bando de curiosos pseudo-intelectuais escrevendo um monte de asneiras sobre coisas que desconhecem completamente. As revistas especializadas em áudio (como a Backstage, sem ficar enaltecendo o próprio umbigo), via de regra, cumpriram
e cumprem seu papel com êxito