“Sir” Cesar Camargo Mariano…

Três discos que gravei em 1993 no Artmix (console Harrison, multitrack Otari 24 canais, 30 ips/no Dolby) me proporcionaram um grande prazer: trabalhar com o César Camargo Mariano (http://www.cesarcamargomariano.com). Os trabalhos foram: Natural (Cesar Camargo Mariano), Coisas do Brasil (Leila Pinheiro) e Nós (Leny Andrade e Cesar Camargo Mariano).

Gravar com o Cesar é uma experiência sensacional, pois além da musicalidade abundante a gravação torna-se uma verdadeira aula de organização e disciplina, marca registrada desse cara que admiro muito. O cd Natural teve a participação do Pique Riverte (sax e flauta), Walmir Gil (trumpete e flugel), Marcelo Mariano (baixo), Pantico Rocha (bateria) e Luiz Carlos (percussão), uma banda super competente e muito integrada aos teclados e ao trabalho do Cesar. O repertório (Maracatu Atômico, Manhã de Carnaval, A Felicidade, Choro for Clare, Trocando em Miúdos, O Nosso Amor, Zazueira, Endlessly, Pamela, Tristeza de Nós Dois e Curitiba) muito bem selecionado, retrata o mais puro CCM… Vale a pena ouvir!

O cd Coisas do Brasil (Leila Pinheiro) na minha opinião, foi uma grande virada na carreira da Leila, pois vai de Dori Caymmi à Lulu Santos, passando por Chico Buarque, Baden, Vinícius, Ivan Lins & Vitor Martins, Martinho da Vila, Benjor, Renato Russo e Edson Trindade (quem nunca curtiu “Gostava Tanto de Você?…” rs). Mais um banho de produção do César e o prazer de trabalhar com a Leila, uma artista que respeito muito e passei a admirar mais ainda depois deste cd. A banda do disco é formada pelo Pedro Ivo (baixo), Cesinha (bateria), Álvaro (violão), Proveta, François, Gil, Cacá e Tenisson (metais) e o Luiz Carlos (percussão).

O terceiro cd “Nós” é um duo maravilhoso de piano e voz do Cesar com a “primeira dama” Leny Andrade, que dispensa qualquer tipo de comentário, a não ser o quanto à figura da Leny é bárbara, como artista e pessoa. Pegando uma carona nos agradecimentos do encarte (“Agradeço a Leny por ter me proporcionado a realização de dois prazeres: o de acompanhar e o de acompanha-la”. – CCM), agradeço ao Cesar a oportunidade de termos trabalhado juntos nesses projetos e principalmente por esse “workshop” de dedicação, disciplina, competência e amor à música.

Até Março galera!!!

A minha (ops… a nossa!!!) “Universidade Livre de Blues” …

O Blues Festival…

Sem nenhuma dúvida, de todos os eventos e festivais multi-bandas que participei, os mais especiais foram as edições do Blues Festival sob a batuta do produtor César Castanho e produção técnica do “Mago da Paranoia” (saudável e competente paranoia, é claro, onde “não errar” é o lema!!!) on stage Pena Schimdt … Fiz parte da equipe técnica como engenheiro de monitor nas três datas, e o que é melhor, as bandas de blues geralmente não viajam com equipe! Desde o primeiro evento em Ribeirão Preto (com a parceria do Hamilton Micca Grieco no PA e um festival de canjas no hotel depois do evento com caras correndo pelos corredores tocando sax e até com viola caipira caindo no blues), passando pelo segundo no Ginásio do Ibirapuera em São Paulo e a edição “Sesc in Blues” em São Carlos (com as mixes do Carlinhos Freitas), descobri nesses caras uma humildade completamente proporcional ao que eles representam para a história da música mundial.

Aprendemos muito com bandas do calibre de um Albert Collins, Magic Slim & The Teardrops, Etta James, Otis Clay, John Hammond, Eddy Clearwater, Bo Didley, B.B.King (este nunca participou das edições de Ribeirão, São Carlos & Sampa do festival, mas fez alguns concertos memoráveis no Brasil), André Cristovam, Flávio Guimarães, Frejat, Ed Motta e a nossa ótima e cheia de outras feras Brazilian Blues All Stars, entre muitos outros. Uma verdadeira aula de humildade e amor pela música que fazem. Até alguns desafios na parte técnica foram muitos bem superados como, por exemplo, deixar os caras à vontade em um stage gigantesco como o Ginásio do Ibirapuera em Sampa, já que os “Clubs” e stages menores tem muito mais a ver com a sonoridade que essas bandas gostam pra tocar.

Alguns shows (na verdade, todos eles) foram bárbaros… O Albert Collins com um Twin Fender queimado no primeiro acorde do show, transformou um Jazz Chorus num amplificador de blues, a gente olhava e não acreditava no que estava ouvindo, o John Hammond de violão de aço, harmônica e voz para um público de 15.000 pessoas no primeiro dia no Ibirapuera, a verdadeira celebração que foi o show, ou melhor, a celebração do Otis Clay em São Carlos e um muito especial: uma banda chamada Saffire!!! Três mulheres infernais que roubaram a cena no Sesc: Ann Rabson, Gaye Adegbalola e Andra Faye, que fazem uma apresentação muito espirituosa de blues clássicos no melhor do acústico. Enfim, um projeto muito legal que já deveria ter sua edição anual garantida. Uma verdadeira aula de postura e história da música.

B.B.King…

Ouvindo o CD “Deuces Wild” do B.B.King me lembrei dos shows históricos que ele fez no Olympia em Sampa. Foi muito engraçado… Estávamos eu e o Roberto Marques com o equipamento alinhado desde as dez da manhã e nada de aparecer alguém da banda pro soundcheck. Quando bateu umas quatro da tarde, pinta aquele maluco do trumpete (não se sabe até hoje como a cabeça dele para no pescoço…rs) e disse que só ele viria passar o som e nos orientar quanto a mix da banda, que só chegaria ao Olympia meia hora antes do show.

A mix de monitor era a seguinte: os caras só queriam os próprios instrumentos nos monitores e muita guitarra e voz do BB pra todo mundo. Os caras tocavam tão perto uns dos outros que parecia mais uma sala de ensaio do que o stage do Olympia. Conforme o combinado, meia hora antes do show chega todo mundo, já trocados pro show, entram no palco, dão aquela arrumada na afinação e mandam apagar as luzes e abrir as cortinas.

O que se viu naqueles dois dias de concerto foi uma banda infernal num verdadeiro banho de blues!!! Duas coisas muito especiais: a humildade e simplicidade do B.B., que saia do palco e vinha direto pra mesa de monitor agradecer o trabalho da técnica, antes mesmo de falar com o empresário, e um cara que eu fiquei muito fã (e que por uma ‘incompetência master’ da minha parte, não me lembro o nome dele agora) nos teclados, que tinha 40 anos de órgão Hammond e me fez deixar um pouco de lado (só por duas noites, é claro…rsrsrs) meu ídolo John Lord… Quem viu, viu!!!… Mais ou menos como o Queen no Morumbi em 1980!!!

Abraço do Farat!!!

Rita Lee e a “Marca da Zorra” … Diversão explícita no stage!!!

Um belo dia pinta um telefonema em casa: “Farat, o que você ta fazendo agora, quer fazer a tour da Rita?…” rs. Bem eu, que tomei muita chuva na Av. Brigadeiro Luis Antônio pra comprar ingresso pro “Babilônia”, que tenho todos os LPs de vinil da Rita… Fechei no ato, sem saber o que ia rolar de agenda, banda, quanto tempo seria, etc. Olha, não me arrependo nem um pouco… A palavra “festa” tem dois significados: um antes e outro depois da Rita.

Esse show foi bárbaro, era rock and roll total, todas as músicas da minha delinqüência juvenil no set list, mulher pelada no palco (miss Brasil 2000), levitação, um helicóptero rádio controlado voando por cima da banda e muitas outras loucuras na batuta do “maestro da produção” Leonardo Neto. Sem contar que o primeiro passo dessa tour foi abrir os Rolling Stones na “Voodoo Lounge”, primeira visita da banda ao Brasil, viajamos o país todo com a Zorra (que está registrado no disco ao vivo no Canecão). A banda era formada por Paulo Zinner, Lee Marcucci, Ronaldo Paschoa, Fabinho Recco e Roberto de Carvalho. Mais pra frente na coluna tecnologia e operação vou falar sobre o operacional do show, que vale a pena.

Uma coisa marcou muito nessa tour; o profissionalismo do Roberto. Eu, um desses radicais órfãos do Tutti Frutti, conheci um dos caras mais profissionais do rock nacional. A concepção de arranjos do Roberto é impressionante e facilitaram muito o trabalho da técnica nessa tour (obrigado “de Carvalho”, aprendi muito contigo nessa empreitada… rs). E não parou por aí não, tenho registrado em foto os olhos do meu filhote (com seis anos na época) vendo um show da Rita e a minha cara de alegria em ter proporcionado isso a ele, conhecer o som de Rita Lee…Rs Hoje em dia eu já posso encher o peito pra falar que já fui engenheiro de monitor da Rita… Eu acho que o mesmo acontece com a galera da técnica envolvida na Zorra; O Silvinho, o Bellini, o Adriano Colono, o Oswaldo, o Labak, o Baldinato… Salve Sta. Rita de Sampa…

O monitor…

Com certeza “A Marca da Zorra” seria uma grande tour da Rita, pois além do show de abertura nos Stones deixarem a equipe muito animada ainda gravaríamos um cd ao vivo nas primeiras semanas da temporada, no Canecão, RJ. Enquanto o cenário estava sendo finalizado e o repertório escolhido, decidimos escolher um kit básico para o monitor na Gabisom, que faria toda a tour. O cenário ficou pronto: um castelo medieval com uma rampa de ponta a ponta atrás da banda, uma escadaria no centro e duas passarelas na frente.

Como seria a primeira vez que trabalharíamos juntos e eu não sabia como a Rita e a banda gostavam de mixar os monitores, praticamente começamos do “zero”. Escolhemos a Ramsa 840, gráficos Klark Teknik e monitores Clair Bros., um kit básico mas de muita responsa! Falei pro Roberto de Carvalho que faria uma sugestão para começar e com o andamento dos ensaios iríamos modificando a mix e a posição dos monitores de acordo com a necessidade (detalhe: a primeira montagem foi a que valeu pra toda a tour!).

A via da Rita era composta por oito monitores em linha reta na frente do palco, divididas em duas mixes: as quatro centrais em uma e as duas restantes em cada ponta em outra, pois com a proximidade do side elas trabalhavam bem mais baixas que as centrais. Duas caixas na mix do Roberto, duas nos teclados e uma para cada um nas vias da guitarra e do baixo. Na bateria utilizamos apenas uma Clair sobre o sub trabalhando bem próximo ao Paulo Zinner, nos dando muito rendimento com pouco volume. Uma última via com quatro caixas espalhadas pelas passarelas e escadaria resolveu todos os pontos do stage (era muito fácil correr atrás da galera nas mixes, pois absolutamente todos os pontos do palco estavam cobertos). Na mix do side bateria, baixo, teclados, vozes e as guitarras cruzadas, na mix da Rita basicamente voz, bateria e teclados (as guitarras e baixo ficavam só por conta dos amplificadores). Um detalhe legal desse monitor foi conseguirmos trabalhar com um grave infernal na bateria do Zinner apenas na área ocupada pela batera, no resto do palco a bateria era mixada muito seca e apenas o necessário para dar o bit pra banda (lembrem-se daquela bateria do Paulo que era igual a do Ian Paice, com bumbo de 26, etc…). A coisa mais trabalhosa mesmo desse show era o head set da Rita que ela utilizava quase o tempo todo, por isso optei por um equalizador no insert desse canal.

Os únicos momentos de stress absoluto no monitor desse show eram a decolagem e pouso do helicóptero rádio controlado que voava pelo palco e quando a Valéria “Miss Brasil 2000″ entrava em cena, nos 90 segundos mais esperados do rock nacional naquele ano, principalmente pra quem estava nas primeiras filas…rs.

Inesquecível tour!!!… Até o próximo!!!

Marlon Jordan no Free Jazz, uma mix (muito) diferente…

O cenário é o Free Jazz 2001, palco New Directions/SP, show do Marlon Jordan. Quando iniciamos o sound check da banda, recebi um “topo” quando perguntei ao Antoine Midani que mixava a house, se talvez trabalharíamos com o piano acústico aberto, sendo que na noite anterior no Rio de Janeiro o mesmo trabalhou fechado…

Ok, piano aberto meia tampa, dois mics C414 dentro e só restava perguntar ao músico de Marlon se poderíamos fazer o show daquela maneira. Quando a banda chegou para a passagem de som, não só fomos autorizados a abrir o piano, mas também a abri-lo totalmente e contemplar o sorriso explicitamente agradecido do pianista (lembrem-se que qualquer alteração num stage nunca deve ser feita sem a devida autorização dos músicos ou do artista…posturinha básica!).

Com o piano aberto e checado havia mais um detalhe; o baixista não queria nem passar perto de um DI no baixo, queria apenas o microfone! O que fiz; abri o baixo acústico no side pra que algum sinal ficasse entre o instrumento e a volta do PA não criando aquele desconforto no palco, já que não teríamos nenhum amplificador no instrumento. Como o trio baixo/piano/bateria estava muito próximo e o vazamento dos pratos e da bateria no mic do baixo era muito grande, o que fazer?… Enfim, precisei trabalhar como nunca na equalização do microfone do baixo para que o vazamento soasse comodamente no stage. Acreditem de verdade, o do som dos pratos e da bateria no microfone do baixo acústico ficou espetacular nos sides e a mixagem dos monitores tomou outro rumo, com absolutamente todos os mics abertos no stage, e o principal, nada atrapalhando a mix do Antoine!!!

Enfim, detalhes resolvidos chegou a hora do trumpete do Marlon. Com o piano aberto total, microfone do baixo num volume considerável (com muito critério, mas consideravelmente alto) e bateria com apenas kick, snare e dois overs, era muito interessante o resultado, pois onde o cara tocasse o seu trumpete, de alguma maneira ele estava na mix (principalmente nos momentos que já estamos acostumados a ver, onde o músico toca fora do seu microfone, perto do piano pra dar uma descontraída…). Para ser sincero, nunca trabalhei tanto nos vazamentos como nesse show…

Mesmo levando-se em conta a altíssima qualidade dos monitores, consoles e microfones do equipamento utilizado no Free Jazz, se essa maneira de ambientar um quarteto fosse discutida num curso de áudio ou numa palestra, além parecer coisa de maluco (aliás, quem disse que engenheiro de monitor é um ser humano normal???), eu iria com certeza perder meu brevê e seria proibido de voar nos stages…hahahaha. Mas que foi um grande barato foi!!!…

Até o próximo…

Muita calma nessa hora… (ou: “Um dia de fúria…hahahaha).

Mais um dia de tour da sua banda predileta e lá vai você pro aeroporto cheio de vontade de fazer um belo som e se divertir um pouco… maravilha!!!… (nem sempre…). Quando chega no aeroporto descobre que não tem teto pra voar e que o seu aviãozinho vai sair com duas a três horas de atraso!!! Bom, o remédio é tomar um café (e os preços inacreditáveis dos cafés nos aeroportos???!!!…rs) e aguardar pacientemente o horário de embarque.

Quando finalmente o vôo decola, normalmente a cabeça já está trabalhando a mil pra montar o esquema da passagem de som, porque provavelmente vai rolar aquela “ficada direta” no local do show compensando o atraso da viagem… Sem falar nos nem sempre apetitosos lanches servidos durante o vôo, vamos direto ao assunto…

Tudo certo no local do evento, palco bonito, ainda existe tempo pra montar tudo, aquele Sol maravilhoso, todo mundo de bom humor na equipe… Aí começa o show de horror: Quando o gerador é ligado, parece que o caminhão está em cima do palco… socorro!!! Vamos lá, ver quantos metros de cabo os caras tem pra levar o gerador pra muito longe de onde ele está… Bom, depois de uns quarenta minutos de trampo pra levar o gerador pra longe (que teve que passar pelos bois, é claro), na primeira palavra no microfone depois de tudo montado você toma um susto de alguns volts na boca e descobre que tem 120 (ou muito mais) volts na estrutura do palco, porque o aterramento é deficiente ou simplesmente não existe (a famosa frase “o palco ta ‘enterrado’ sim”, é, além de clássica, verdadeira)!!!… hehehehe…

Ok, depois do atraso do vôo, do gerador e do primeiro choque, você fala (depois de uma breve reflexão sobre estar ali naquele momento): é hoje, muita calma nessa hora… E na verdade o problema do técnico de monitor não é nada, é só olhar pra house mix e ver o desespero do cara do PA porque o equipamento está no local mais surreal possível… A “novela” é sempre a mesma: a versão da mesa está desatualizada e não leu a cena, oito caras em volta de um maluco com um laptop em uma mão e a malinha na outra, mandando um discurso incrível pra convencer a galera a mudar a mesa de lugar, pelo menos para onde ele consiga ouvir sua mixagem e garantir o sucesso técnico do evento…rs.

Em todos esses anos de estrada, a infra-estrutura dos eventos está cada vez melhor, mas sempre esteja preparado para em algum momento da tour ter “um dia de cão” (ou “um dia de fúria”, como queira) e passar por isso se divertindo. É incrível, mas sempre dá certo no final… A fórmula “conheça muito a banda + coloque tudo que aprendeu na vida + tenha uma equipe unida + seja o cara mais calmo do mundo = um show como todos os outros” é importantíssima num momento desse tipo (não me lembro de muitos shows cancelados, por mais problemas que tivéssemos que enfrentar no dia)… É claro, terremotos, dilúvios e desabamentos não contam…

Pra completar nosso papo, eu ainda sonho com o fim de um dos últimos pesadelos da estrada: “O Mundo Horroroso e Irresponsável da Desmontagem…” Todo mundo cansado querendo ir pra casa, os carregadores ainda ser receber, chovendo, show no mesmo palco no dia seguinte com montagem as oito da manhã, cases passando por cima dos nossos cabos de antena, lanterna na boca porque não rola luz de serviço, microfones perdidos, in-ears embaraçados, etc… É na desmontagem que equipamentos pifam, perdem-se componentes, ponteiras, pedestais, etc… Mas confesso que a coisa aos poucos vai melhorando!!!

Converso sempre com os caras de monitor pela estrada e o roteiro é o mesmo, por mais que pareça, e de certa forma, seja errado: nos dias em que não se passa som, cheio de problemas, chovendo e etc, o show sempre é bom!!!… Quantas e quantas vezes rola aquela passada linda e quando chega a hora do show muda tudo, as pessoas enlouquecem (e te levam junto…rs), fica todo mundo olhando pra você e perguntando porque a mixagem está toda alterada…!!!. Eu particularmente adoro o esquema de trabalho que temos hoje no RPM: os roadies dão conta do recado muito bem no palco e quando os caras da banda chegam na hora do show, botam os in-ears na orelha, um sorriso na cara e mandam bala…

Na verdade, muitas bandas trabalham assim hoje em dia, e depois dos in-ears (e de uma certa maneira um bom padrão e unidade das empresas de áudio) essa maneira de trabalhar ficou muito mais tranqüila, pois o resultado é sempre parecido na mix final de monitor, e com a banda descansada um mês de oito shows pode na boa, virar um mês de dezesseis!!!…rs.

E pra encerrar esse longo post, aí vai o ABC do stage:

A – “Aqui no monitor tem…!” (o cara do monitor pro PA…)
B – “Bem que eu avisei…!” (em qualquer situação de pânico…)
C – “Camarim da técnica???” (da coitada que monta os camarins…)
D – “Deixa que eu arrumo…” (um cara que vc nunca viu no stage…)
E – “Eu juro que o aterramento ta certo…” (hahahahaha…)
F – “Fui eu???” (geralmente do cara que fez a besteira…)
G – “Gerador, que gerador???” (o produtor local no dia do show…)
H – “Hahahaha… (quando vc pergunta sobre voltagem estabilizada)
I – “In ears , side line array e center fill pra dentro do palco…
J – “Já fiz tudo o que podia, só não troquei as pilhas…” (o roadie…)
L – “Liga o DJ no Side enquanto vc faz o line check”… (socorro!!!)
M – “Meu in-ear ta falhando…” (do seu artista entrando no palco…)
N – “No PA ta tudo certo…” (o cara do PA pro Monitor…)
O – “O sub ta uma coisa horrível…” (do roadie de bateria…)
P – “Prepare-se porque o ginásio é enorme!!! (vc pro teu artista…)
Q – “Quando lotar melhora a reverberação do ginásio…” (hahahaha…)
R – “Relaxa, é só uma chuvinha…” (o assistente do contratante…)
S – “Sumiu o baixo… (do cara do PA…)
T – “Tem um canal sobrando aí?” (sempre na hora do show entrar…)
U – “Ué???” (de qualquer um pra qualquer um no palco…)
V – “Virgem Maria, a roda gigante ta piscando!” (passando o bumbo…)
X – “Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…” (de qualquer um pra qualquer um também…)
Z – “Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…” (o cara da empresa de som…)

Que venha 2012 galera… Um ótimo ano pra todo mundo!!!

Até o próximo… Abraços!!!

Paulo Farat

O Free Jazz em Sampa, paixão explícita!!!

No último post do ano, gostaria de falar sobre um trabalho extremamente especial…Todos nós envolvidos na produção do Free Jazz já tentamos encontrar uma explicação para amar (até hoje) de paixão um evento no qual você não dormia mais do que três horas por dia durante o festival todo, trabalhava feito um maluco, convivia com todos os tipos de egos e manias, bandas de todos os estilos e comportamentos, tinha que tornar possível a convivência entre os mais diferentes riders técnicos e stage maps na mesma noite, trocar de palco em exatos quinze minutos e deixar todo mundo feliz no final da noite!!!…rs.

Posso dizer seguramente, que ao lado do Blues Festival (espero que ele ainda volte em novas edições) o Free Jazz foi simplesmente um vício! Todos os anos nós já sabíamos exatamente o que iria acontecer em termos de organização e procedimentos técnicos, por isso procurávamos manter sempre os mesmos caras nos mesmos stages, caso todos pudessem integrar a equipe (só não fazia quem estivesse “on tour” com seu artista ou trancado em estúdio). Nos últimos quinze ou vinte anos participei de boa parte dos principais festivais de jazz pelo planeta como engenheiro de monitor do Milton, e sem dúvida nenhuma o Free Jazz paulistano foi de longe um dos melhores, na minha opinião lado a lado com o de Montreal no Canadá e o velho e bom Montreux Jazz!

O suporte técnico da Gabisom nos permitia sempre uma operação segura, confiável e cheia de opções de consoles, monitores, periféricos e qualquer outra necessidade para atender aos mais variados stage maps e exigências. Outra coisa muito produtiva no Free é que cada palco foi criando a sua identidade sonora, sua equipe e seu modo operacional com o passar do tempo, e é por isso que tentamos manter sempre os mesmos times. O festival, além de uma aula de música, sons e estilos, também foi uma prova viva que a fórmula concepção+organização+dedicação é o caminho mais curto para um resultado final eficiente. Todo o “circo” era capitaneado pelo Pena Schimdt e sua Stage Brainz, o que já garantia boa parte da paranóia operacional do evento…rs. Falar dos artistas e bandas (nacionais e internacionais) que se apresentaram por todos esses anos no Free não é necessário, mas com certeza, ressaltar tudo o que aprendemos com muitos deles é no mínimo justo, mesmo porque eles também adoravam o tratamento VIP que recebiam pela equipe daqui!!!

Um grande barato do evento também era o nosso encontro no café da manhã, almoço e jantar no backstage, onde trocávamos meia hora de papo e informações sobre os diferentes stages, bandas, os problemas e suas respectivas soluções, onde nos integrávamos mais ainda com o crew internacional e, principalmente, confirmávamos com as equipes dos outros palcos o que seria “imperdível” em suas programações a cada noite.

O meu trabalho rolava no palco “New Directions”, que sempre nos reservava grandes surpresas e não troquei por nenhum outro! Tecnicamente bem estruturado, tinha um set básico muito eficiente no monitor (Yamaha PM 4000, Clair Brothers, Klark Teknik), um set básico de bom humor, sorriso na cara, tratamento VIP e o melhor horário do evento: das 19:00 as 21:00 hs. Tudo isso somado a quantidade de amigos, técnicos reunidos e gente bonita circulando me faz declarar publicamente essa paixão pelo nosso “stagezinho do Jockey Club” que deixou muita saudade…rs.

Um Natal de muita Paz pra todo mundo, e que venha 2012, com muito Som e bons papos!!!

Abraço especial de Natal do Farat!!!

Milton Nascimento…

Peço licença aos envolvidos nesse espaço, para um momento só meu, de tietagem explícita e até meio egoísta eu diria, mas se existem coisas na minha vida profissional que eu deva idolatrar e celebrar, uma delas chama-se Milton Nascimento!!! Hoje não quero falar de técnica, mas daquela história sobre estar na hora certa e no lugar certo… Isso pode mudar a vida da gente de uma tal maneira que se torna complicado resumi-la em algumas linhas de uma tela de 17 (ou mais, ou menos) polegadas.

Eu tinha um certo sonho na vida profissional, que era fazer o monitor da Elis, que infelizmente foi embora muito cedo e eu não tive tempo de participar de nada on stage com ela, mesmo que por tabela… Um belo dia pinta o convite, feito pelo Roberto Marques: “quer mixar o monitor do Milton???”… Fala sério galera, olha a compensação que o CARA lá de cima mandou pela ausência da Elis na minha vida profissional… Fiquei alucinado, era sensacional a idéia de mixar o Milton!!! Lá fui eu pra Minas (Pouso Alegre se não me engano) pro meu primeiro show…

Bom, minha estréia foi tão boa, que além ter sido no pior ginásio que eu já operei som na minha vida (se você passar por lá hoje ainda deve estar ecoando “Maria Maria” pelas paredes), eu ainda tive que enfrentar o cara emburrado, sem falar comigo depois do show e querendo o antigo engenheiro de volta…rsrsrs!!! Mas foi apenas o susto… O que se seguiu nos quase oito anos de Milton Nascimento mudou radicalmente a minha vida profissional, meu gosto e cultura musical e minha sensibilidade atrás de uma mesa de monitor…

Do final da Tour “Txai” até a volta aos palcos com a tour “Tambores de Minas” foram indescritíveis os caminhos pelos quais a “caravana” passou… Músicos como João Baptista, Robertinho Silva, Túlio Mourão, Lelei e Ronaldo Silva, Lincon Cheib, Kiko Continentino, Hugo Fatoruzzo, Nivaldo Ornelas, Luiz Alves, entre muitos outros, levaram o som do Milton para todos os lugares do planeta… Foram fantásticos momentos, como o show no Royal Albert Hall de Londres com a Royal Philharmonic Orchestra, a Missa dos Quilombos em Santiago de Compostella, todos os grandes Festivais de Jazz do circuito internacional, especiais com Tom Jobim, participações de Jon Anderson, James Taylor, entre muitos outros (“muitos outros” que incluem até uma inesquecível dobradinha com o Jethro Tull em uma fazenda na Suíça), e até uma tour pelo interior de Minas, em lugares que ninguém imaginava o Nascimento cantando…rs.

Quem viu, por exemplo, “Beatriz” apenas com o Fatoruzzo no piano e o Milton na voz, na gravação do “Planeta Blue na estrada do Sol”, ou a versão de “Cálice” na tour Ângelus, não sabe, mas nunca mais vai rolar nada parecido em um stage da MPB tão cedo… Mixar Milton era sensacional… Uma voz “do além”, mágica… Cabe em qualquer mixagem, em qualquer stage… Se o cara cantar “Atirei o Pau no Gato” fica de arrepiar…

Eu agradeço muito a honra de ter feito parte do crew do Milton, ter tido o seu respeito, sua confiança, e talvez, por mais que ele possa desconhecer o tamanho e proporção disso tudo, minha vida profissional jamais seria a mesma sem esses anos fantásticos como engenheiro da banda, anos de aprimoramento técnico e reciprocidade…

A palavra “gratidão” tem dois significados: um antes e outro depois de Milton Nascimento… Te amo cara!!!

Até o próximo…

“Aventura” em 4 canais…

Olá galera… Sempre pensando nos nossos “papos” virtuais, acredito que uma ordem cronológica dos textos por aqui seja interessante, pois teremos muito tempo e espaço pra isso… Seguindo esse princípio, quero dividir com todos uma “aventura” muito legal lá do começo…

Bem no final dos anos 70/início dos anos 80 no estúdio Vice-Versa, quando o Pro Tools estava mais perto do seriado “The Jetsons” do que das nossas mãos, o Fernando Telji, que era produtor do estúdio na época me disse: vamos produzir um disco com o Pedrinho Batera (Som Nosso de Cada Dia)… No estúdio B!!! Aeeeeeeeeeee…!!! No B???!!! Fiquei apavorado! Como gravaria o Pedrinho no B, sabendo que vinha chumbo do grosso na arregimentação? Na época, o B do Vice-Versa tinha uma mesa Teac 16 X 4 (turbinada pelos equalizadores gráficos fabricados na sala dos milagres do “magic” Joaquim Gonçalves), uma Ampex AG 440 de 4 canais, monitores JBL não me lembro o modelo, alguns bons microfones e um técnico demente em início de carreira que topou essa empreitada!!! Hahahaha…

Bom, o primeiro passo foi roubar a bateria do estúdio A, uma Pearl Wood Fiber zero, na caixa (como gravamos no período da madrugada ficou mais fácil driblar a diretoria… Me perdoem, confessei o delito depois de 30 anos!!!), pra garantir o som da cozinha. Aliás, cansei de esticar cabos de microfone, fones e gravar o piano acústico do estúdio A nas produções do B, roubar as caixas de bateria do Wilsão Gonçalves, entre outros pequenos “delitos” técnicos, etc… Afinal, a concorrência era desleal com as gravinas do Vinicão, do próprio Wilson, e de outros Top Guns da época de ouro do Vice-Versa… Bom, voltando ao assunto de pauta, a arregimentação desse disco era “apenas” Nico Assumpção e Zé Português nos baixos, Egídio Conde e Ivo Carvalho nas guitarras, Ricardo Cristaldi nos teclados e arranjos, Bocato e a galera toda da Metalurgia nos metais, Caio Flávio, Marcinha e cia nos vocais e o Pedrinho na bateria, percussão e vocal solo, é claro.

Com a competência e calibre de todos os envolvidos do lado de lá do aquário, gravamos todas as bases mixadas direto em dois canais e todos os complementos nos outros dois restantes da velha e cúmplice Ampex AG 440. Feito isso, o próximo passo foi mixar tudo para o tape de ¼ num Revox A700 (com o auxílio luxuoso da salinha de azulejos no teto do estúdio como reverb top de linha, a Orban azulzinha que eu não lembro o modelo e dois clássicos compressores LA3) e devolver as mixes para a máquina multitrack (usei muito esse procedimento de gravar bases já mixadas em poucos canais, quando as nossas bravas e valentes máquinas de 24 tracks começaram a ficar insuficientes e eu queria aproveitar o som analógico, principalmente quando elas eram equipadas com Dolby SR, gravando em 15 ips).

Nessa etapa do trabalho tínhamos fantásticos instrumentais gravados em dois canais; bases suficientemente boas para as tomadas de voz solo e vocal nos outros dois canais disponíveis. Gravadas as vozes solo do Pedrinho e todos os vocais, tudo pronto para mixar… Mixar com apenas um detalhe: “o resto”!!! Faltava ainda o obrigatório e “balançado” toque da Metalurgia e alguns teclados e guitarras!!!

Na fase da mixagem do trabalho, colocamos todos os metais dentro do estúdio, o Ricardo Cristaldi (Mr. Fender Rhodes) com o Mini Moog e o Ivo Carvalho (Mr. Bom Gosto) com a Les Paul dentro da técnica; todos tocando real time com a mix!…Rs. Foi mais ou menos essa a insanidade para gravar o “Bananas”, “Lixo per Capta”, “Pra Swingar” e “Eu Te Quero Agora” … Na época saiu um compacto duplo pelo selo Royal (do Oswaldo Malagutti/Mosh). Aventura MEGA que eu ainda vou recuperar o áudio original, pois esse compacto desapareceu misteriosamente da minha estante!!! … Se alguém encontrar essa pérola por aí, por favor, me avise!!!

Abraço do Farat!!!

Como tudo começou (Parte 1)…

Tão importante quanto uma boa referência técnica lá no início da estrada, é uma boa companhia artística e criativa como base (falo muito sobre isso aos que começam a jornada nos dias de hoje, onde se olha primeiro para as maravilhas da versão nova do Pro Tools, depois pra dentro do estúdio!!!).

Depois do susto que foi ouvir “The Dark Side Of The Moon” e “A Night At The Opera” (os dois discos que radicalmente mudaram a minha vida e me direcionaram pro áudio), ter um pouco de sorte, estar no lugar certo e na hora certa, com “padrinhos e mestres” certos, foi fundamental e um empurrãozinho sem preço… As pedras fundamentais na minha jornada foram, sem dúvida nenhuma, as portas que o Maurício de Sousa e o seu irmão Márcio abriram nos estúdios MSP pra esse boy de construtora metido a besta aqui… Sou eternamente grato, porque depois de ser despedido do antigo emprego por passar a maior parte do tempo tocando Hammond na máquina de escrever e Moog na calculadora em dia de concorrência (dublando John Lord no disco, ops, na Basfita K7 46 “Come Taste The Band” do Deep Purple) no escritório da empresa, a casa caiu pra mim!!! Naquele momento acreditei que seria menos doloroso trilhar novos caminhos do que tentar explicar ao patrão, um cara extremamente gente fina, na verdade um mix de Cristopher Cross & Mike Tyson na “máquina da mosca”, o que era Deep Purple ou quem era John Lord!!!

O próximo passo depois da Turma da Mônica, foi entrar no Vice-Versa e contar todas as mentiras possíveis ao Luiz Botelho (cada um tem o “mestre Yoda” que merece, e esse é o maior deles!!!) que, graças a Deus, não acreditou em nenhuma e apenas na minha vontade de ser alguém no áudio…

Lá no Vice (em 1979), fora meus mestres Marcus Vinícius, Wilson “Relax” Gonçalves, Ricardo “Franja” Carvalheira e Nelsinho Dantas, tive também a sorte de conviver e trabalhar com dois dos meus grandes ídolos na música: Sá & Guarabyra. O que eu vi (e ouvi) sair daqueles violõezinhos, pedaços de papel e fitinhas cassete foi uma verdadeira aula de criatividade e bom gosto!!! Junto com aquela paciência toda com a minha “ansiedade de principiante” sempre vinha um toque ou outro, que me abriram muito os olhos e ouvidos muito mais rápido sobre o que era aquele mundinho do áudio e o que era fazer parte dele.

E as bandas de Sá & Guarabyra??? A Ponte Aérea (Nonato, Constant, Pedrão e Beto), Paulinho Calazans, Alaor Neves, Ruriá Duprat, Sérgio Kaffa, Pedrão (do Som Nosso), Rui Motta, entre outros… socorro!!! Era uma festa qualquer show dos caras, numa garantia absoluta que quase todos os engenheiros de som que não estivessem na estrada ou no estúdio circulariam pelo backstage. Da música de Sá & Guarabyra não preciso falar nada (cada um coloca o que desejar na sua Cdteca e azar de quem não ouve Sá & Guarabyra), mas eu gostaria de deixar explícito nessa matéria que são dois caras que eu aprendi a “amar de paixão” e vou levar isso pro resto da vida!!! Sabe aqueles amigos que quando você encontra e abraça passa um filminho muito bom das coisas???… Então… E olha que lá se vão mais de trinta anos… Thanks maninhos, e muito obrigado por tudo até aqui!!!

E a minha primeira sessão de gravação oficial no Vice-Versa então??? Foi com o Rogério Duprat… Lá estava eu, um ex-boy frente a frente com o gênio no estúdio!!! Lembro-me muito bem do frio na barriga quando chamei o Rogério pra ouvir a mix na técnica… A frase de foi essa: “Farat, nunca ouvi um som tão lindo desse estúdio B, só que eu não estou vendendo bateria moleque… Esse jingle é para uma empresa de adubos, por favor, remixe isso com mais critério para o que a peça foi feita!”… Hahaha. Imaginem ouvir isso do mago Duprat, logo na primeira sessão de mixagem!!!

Agradeço a Deus por ter padrinhos desse porte na minha vida profissional… A humildade de todos foi extremamente proporcional as suas genialidades e minha estrada não seria a mesma sem aqueles valiosos conselhos e uma infinita paciência! Quem sou eu pra falar desses caras insanos e sensacionais???!!! Ficarão eternamente nos nossos ouvidos e na minha história pessoal e profissional!!!
Foi mais ou menos, pra não dizer exatamente, isso que aconteceu lá no começo de tudo!!!… Bom, isso foi só o início… Vem muito mais histórias e personagens por aí…

Abraço e até a próxima!!!

Paulo Farat

Um brinde ao básico…

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer o convite da Backstage para “blogar” por aqui e aos poucos dividir com todos algumas histórias do stage e seus “derivados”… É sempre interessante uma nova porta para que possamos conversar sobre esse mundinho gostoso e divertido do áudio!!!… Vamos lá…

Ok galera, estamos numa época de formadores de opinião e do “clique aqui” no caminho virtual (e muito bem-vindo) das informações… Mas o que foi feito do básico??? No final dos anos 70 e início dos 80, na sala de reuniões do Estúdio Vice-Versa, a primeira coisa que o mestre Luiz Augusto Botelho me disse foi: “Farat, existe um coisa que precisa ser respeitada, e muito nessa profissão… o ZERO!!!”… Um dia desses numa palestra/bate papo, me perguntaram qual o caminho e o que fazer para estar entre os melh… Opa!!!… Nada de “o melhor”… Não existe o melhor engenheiro, existem os melhores procedimentos… O procedimento certo é o melhor… O som já foi descoberto há milênios, não inventem moda, por favor…

Sem generalizar, é claro, hoje em dia é comum, se colocarmos nossas mesas no “zero”, modulando o pré “cheio”, com as nossas mixes utilizando todo o potencial da mesa, provocarmos o estouro da boiada em um show de feira ou quebrarmos os vidros de dois quarteirões ao redor do espaço, por exemplo, pois o processador do PA vai estar em “+ 40 db” na entrada, ou “+ 20” no sub, e coisa parecida… rs! Por favor, vamos respeitar o “zero”… Quantas vezes eu perguntei como estava um processador que eu não conseguir acessar, e que resposta foi: “o botão de entrada ta em 3 horas!!!”… Como assim, o botão está em 3 horas???… E a leitura da entrada??? Hahahahaha… O fantasma da estrutura de ganho anda vagando por aí ainda, por mais que não pareça!!!

Exemplos como esses geram a perguntinha óbvia: “O que foi feito do básico???” Microfonação, alinhamento, energia adequada… Um certo dia o “cara” do gerador quase saiu correndo atrás de mim com um caibro porque eu pedi o meu com abacaxi e três pedrinhas de gelo!!!… Juro que era uma máquina de garapa o que eu estava vendo!!!… Nós não “fazemos” som pra ninguém… Nós transportamos o conteúdo artístico e a capacidade de execução musical para os ouvidos das pessoas, usando com o maior discernimento possível as ferramentas disponíveis… Os toques pessoais nos efeitos, processamentos de dinâmica, etc é que vão dar a “assinatura” de cada um no resultado final… E só!!!

A frase “o microfone é o primeiro que ouve” é espetacular e explícita!!!… O nosso velho e fiel companheiro microfone!!!… Que sofrimento esse cara tem passado ultimamente… Quando não está todo amassado por desempenhar a função saco de pancada, a cápsula continua molhada da chuva do dia anterior e ele pode estar fora do lugar ou de especificação… Sem contar que, artisticamente falando, ele também é o primeiro que ouve…

Também considero um dos itens “técnicos” importantíssimos dessa conversa, os profissionais das empresas terem tido uma bela noite de sono e um chuveiro quente, depois do show do dia anterior e deixado os cases das mesas para a proteção e segurança das mesmas… Não da pra pedir nada pra quem dormiu a noite toda numa tampa de console e coberto com lona amarela!!!…

A qualidade das empresas de locação, seus investimentos e equipamentos de ponta tornaram nossa vida on stage muito mais fácil, e nosso tempo útil pode e deve ser direcionado para uma exaustiva busca da informação e da concepção adequada ao trabalho… Por favor, não transforme um projeto vitorioso de milhões de dólares em uma aberração sonora com uma “curva” de EQ tão equivocada quanto cinematográfica!!! … (Ah, também tem aquela do processador bloqueado por “segurança” [????!!!!] e o responsável que tem a senha estar fora de qualquer possibilidade de contato…hahahahahaha).

Checar transmissão e recepção, alinhar e zerar entradas e saídas, conferir energia, monitores, in-ears, microfones, cabos, dar aquela repassada na sua cena da mesa, bater um bom papo com a galera do evento sobre os resultados do dia anterior de trabalho, etc é uma tarefa extremamente agradável e produtiva… Juro que é!!!

Em tempos de muita gente falando na “primeira pessoa”, gostaria de esquecer essa parte desinteressante e pouco produtiva de seguidores e usuários do “eu fiz”, “eu faço”, etc e fazer um brinde ao conceito “todos pelo resultado final”, ao básico e a informação total!!!… Só o básico… O som agradece, o mercado agradece… A melhor maneira de definir o conceito “o melhor”…

Abraço do Farat!!!